Mapa do assédio 2025: pesquisa da KPMG alerta para alta subnotificação e déficit de confiança nos canais de denúncia
O assédio no ambiente de trabalho e em espaços públicos continua sendo um desafio crítico para a sociedade brasileira, com um impacto desproporcional sobre as mulheres. A nova edição da pesquisa Mapa do Assédio no Brasil 2025, elaborada pela KPMG, traz dados alarmantes sobre a prevalência do problema e as barreiras que impedem as vítimas de buscarem justiça.
O levantamento, que contou com 1.365 respondentes, revela que 31% das pessoas entrevistadas sofreram algum tipo de assédio nos últimos 12 meses. O perfil demográfico da amostra confirma que o problema tem gênero: 62% das vítimas são mulheres cisgênero, seguidas por 36% de homens cisgênero. Embora o assédio moral ou psicológico seja a forma mais comum (44%), o assédio de gênero aparece como a segunda prática mais frequente, atingindo 15% das pessoas, seguido de perto pelo assédio sexual (14%).
O silêncio que compromete a governança
Um dos pontos mais sensíveis do estudo é a subnotificação. Entre as pessoas que sofreram assédio, 38% não reportaram o ocorrido. Os motivos para o silêncio revelam um profundo déficit de confiança nas estruturas de proteção:
- 25% citaram insegurança ou medo pela integridade física ou psicológica
- 24% temeram a exposição
- 16% relataram medo de sofrer retaliação
- 9% não acreditaram que a denúncia seria investigada
A descrença é alimentada pela falta de resposta institucional: 57% das pessoas que denunciaram afirmaram não ter recebido nenhum retorno dos canais formais. Além disso, 58% relataram que não se sentiram seguras durante o processo de denúncia.
“A subnotificação restringe a capacidade das organizações de identificar riscos e implementar políticas de prevenção. Aumentar a confiança nos canais de denúncia é central para quebrar ciclos de violência.” — Trecho do relatório Mapa do Assédio 2025, KPMG.
Contexto nacional e avanços legais
A pesquisa da KPMG se conecta a um cenário de maior conscientização, mas também de aumento nos registros oficiais. Dados da Controladoria Geral da União (CGU) mostram que as denúncias de assédio em órgãos federais saltaram de 857 em 2019 para 5.225 em 2024, um aumento de 510%. No Judiciário, as ações por assédio sexual cresceram 35% entre 2023 e 2024.
Embora o Brasil possua um arcabouço legal robusto — incluindo o Código Penal (art. 216-A), a CLT (art. 146-A) e a Lei 14.457/22, que obriga empresas a terem canais de denúncia e ações preventivas —, a pesquisa mostra que a existência da norma não garante, por si só, um ambiente seguro.
Como as empresas podem fortalecer a prevenção e o acolhimento
A KPMG aponta cinco passos essenciais para que as organizações transformem suas culturas:
- Treinar e sensibilizar continuamente: capacitar equipes e lideranças para reconhecer e prevenir situações de assédio, promovendo uma cultura de respeito.
- Estabelecer políticas claras de conduta: definir o que é assédio em códigos e manuais, proibindo explicitamente a retaliação.
- Implementar canais de denúncia confiáveis: instituir mecanismos independentes, acessíveis e que permitam o anonimato, operando 24/7.
- Investigar com rigor e dar retorno às vítimas: garantir que toda denúncia seja apurada com independência e que o denunciante receba feedback, fator fundamental para manter a confiança no sistema.
- Monitorar indicadores e reforçar a liderança ética: mensurar denúncias por área e realizar pesquisas internas para avaliar a confiança dos profissionais nos canais e na empresa.
O estudo evidencia que prevenir e enfrentar o assédio não é apenas uma obrigação legal, mas parte essencial de uma gestão responsável e íntegra. Ambientes saudáveis mitigam riscos trabalhistas, reputacionais e operacionais, além de promoverem a retenção de talentos e o bem-estar coletivo.
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