Quando o trabalho também pode ser uma rede de proteção: a experiência do programa Fadas Madrinhas, da Sodexo
A violência contra as mulheres não fica do lado de fora quando elas entram no ambiente de trabalho. Seus impactos atravessam a saúde, o bem-estar, a segurança e também a trajetória profissional de quem vive essa situação.
Nesse contexto, as empresas não substituem os serviços públicos e especializados de proteção, mas podem ocupar um papel importante na construção de redes de acolhimento, informação e encaminhamento. É a partir dessa perspectiva que a Sodexo criou, em 2020, o programa Fadas Madrinhas.
A iniciativa nasceu durante a pandemia de Covid-19, período marcado pelo agravamento da violência doméstica e pelo isolamento de muitas mulheres com as pessoas agressoras. A proposta era criar, dentro da empresa, uma rede segura e confiável para acolher colaboradoras, orientá-las sobre seus direitos e conectá-las aos serviços de proteção disponíveis.
Desde então, o programa cresceu. Atualmente, mais de 80 pessoas voluntárias são capacitadas para oferecer acolhimento e orientação, com formação em aspectos psicológicos e jurídicos. Segundo a Sodexo, a iniciativa já realizou mais de 500 atendimentos e registrou 1.200 acessos ao canal de solicitação de ajuda.
“O objetivo foi criar um espaço seguro e confiável para que as colaboradoras pudessem buscar ajuda, conhecer seus direitos e acessar recursos de proteção”, afirma Lilian Rauld, gerente de Sustentabilidade e ESG da Sodexo.
O apoio inclui escuta acolhedora, orientação sobre direitos, encaminhamento para serviços especializados e suporte durante a tomada de decisões. Em situações mais graves, o programa já auxiliou colaboradoras em risco iminente, incluindo medidas de proteção e transferências para outras localidades quando necessário.
Na entrevista, Lilian fala sobre o funcionamento do programa, o papel das lideranças e os aprendizados que podem contribuir para outras organizações interessadas em avançar no acolhimento de mulheres em situação de violência. Confira!
De que forma o programa acompanha diferentes momentos da jornada de uma mulher em situação de violência?
Mais do que apoiar uma tomada de decisão, o Programa Fadas Madrinhas reconhece que cada mulher vive um processo único e que romper um ciclo de violência nem sempre acontece no primeiro atendimento. Muitas vezes, a colaboradora ainda não está pronta para denunciar, se afastar da pessoa agressora ou tomar qualquer medida imediata.
Os atendimentos podem durar dias, semanas ou até meses, dependendo da situação. Por isso, um dos principais objetivos do Fadas Madrinhas é a construção de um espaço verdadeiramente seguro, onde essa mulher saiba que pode voltar quantas vezes precisar, sem medo de julgamentos, pressão ou cobranças. O mais importante é que ela encontre uma rede de apoio preparada para acolhê-la com respeito, empatia e confidencialidade, independentemente do momento em que esteja em sua jornada.
Qual é o papel das lideranças e do RH nesse processo?
As lideranças e as equipes de RH desempenham um papel essencial na criação de um ambiente de confiança, respeito e acolhimento. A Sodexo investe na capacitação de lideranças para que elas possam reconhecer sinais de vulnerabilidade, acolher de forma adequada e direcionar as colaboradoras para os canais especializados de apoio.
Um dos diferenciais do programa é justamente o desenvolvimento de conhecimento sobre acolhimento e formação de redes de apoio, além da preparação de gestores para lidar com situações de violência sem julgamentos ou revitimização. O foco está na escuta ativa, no respeito à autonomia da colaboradora e na garantia de que ela receba orientação especializada para tomar decisões com segurança.
Como as empresas podem atuar na rede de proteção às mulheres?
O ambiente de trabalho pode ser um espaço seguro para informar, conscientizar, identificar situações de risco e conectar mulheres aos recursos de proteção já existentes na sociedade.
Embora a responsabilidade pelo atendimento especializado seja dos órgãos competentes, as empresas podem atuar como facilitadoras do acesso a essa rede, oferecendo acolhimento inicial, orientação e encaminhamento adequado. O Programa Fadas Madrinhas foi estruturado justamente para servir como ponte entre a colaboradora e os serviços de apoio jurídicos, psicológicos e públicos que podem contribuir para sua proteção e autonomia.
O que mudou na forma como a Sodexo trata a violência contra as mulheres desde a criação do programa?
O programa mostrou que, quando existe uma rede de apoio estruturada, as mulheres se sentem mais seguras para buscar ajuda.
Outro aprendizado importante foi entender que, embora a violência doméstica tenha sido historicamente tratada como uma questão privada na vida das mulheres, ela produz impactos profundos na saúde, no bem-estar, na segurança e na participação dessas pessoas em todos os espaços da sociedade, incluindo o de trabalho. Por isso, acreditamos que não podemos mais tratar o tema como um tabu ou como uma responsabilidade exclusiva das vítimas.
Ao longo dos últimos anos, desenvolvemos diferentes iniciativas educativas para ampliar o letramento sobre o tema, incluindo materiais de sensibilização, vídeos, conteúdos informativos e ferramentas como o Termômetro da Violência, que ajudam as pessoas a reconhecer sinais que muitas vezes passam despercebidos e a compreender seu papel na construção de ambientes mais seguros e respeitosos.
Internamente, observamos uma ampliação das conversas sobre violência de gênero, maior conscientização das equipes e fortalecimento da cultura de respeito, cuidado e apoio às pessoas em situação de vulnerabilidade.
O que outras empresas podem aprender com essa experiência?
Nossa experiência mostra que uma política efetiva deve combinar prevenção, acolhimento e suporte especializado. Para isso, é fundamental que exista um compromisso explícito da liderança com o tema, além de canais seguros, acessíveis e confidenciais para a solicitação de ajuda.
A capacitação contínua de lideranças, equipes de RH e pessoas voluntárias também é essencial, assim como a definição de protocolos claros de acolhimento e encaminhamento e a construção de parcerias com profissionais e serviços especializados. Somam-se a isso ações permanentes de conscientização e educação, sempre com respeito à autonomia, à privacidade e à segurança da colaboradora.
Tudo isso precisa estar sustentado por uma cultura organizacional baseada em empatia, respeito e tolerância zero à violência.
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