Maternidade ainda desacelera carreiras e expõe desafios estruturais nas empresas
A maternidade continua sendo um dos principais pontos de inflexão na trajetória profissional das mulheres. Enquanto empresas avançam em discussões sobre equidade de gênero e retenção de talentos, dados recentes mostram que mães seguem enfrentando barreiras estruturais que impactam desde a permanência no mercado até o acesso à liderança.
Um dos sinais mais evidentes aparece na redução da oferta de licenças estendidas. Dados da Receita Federal mostram que o número de empresas participantes do Programa Empresa Cidadã caiu 71% em um ano. Em 2024, eram 30.545 organizações aderentes. Em 2025, o número passou para 8.862. Segundo o órgão, a queda está relacionada a uma auditoria que excluiu empresas com irregularidades cadastrais ou incompatibilidades tributárias.
O reflexo aparece diretamente nos afastamentos. Um levantamento da VR, com base em dados de 4 milhões de trabalhadores formais, aponta que licenças maternidade superiores a 120 dias representaram apenas 8% do total no primeiro trimestre de 2026. Em 2023, esse percentual era de 11%. Já a licença-paternidade estendida caiu de 9% para 5% no mesmo período.
Na prática, o cuidado ainda segue concentrado nas mulheres, impactando diretamente suas trajetórias profissionais.
O impacto invisível na carreira
Além das dificuldades relacionadas à licença e ao retorno ao trabalho, muitas mulheres enfrentam o chamado “teto materno”, fenômeno que descreve a desaceleração profissional vivida após a maternidade.
Pesquisa do Infojobs revela que 25% das mães deixam de buscar novas oportunidades de carreira e 13% reduzem o ritmo de crescimento profissional após terem filhos. Em muitos casos, essa decisão não acontece por escolha individual, mas pela percepção de que o ambiente corporativo não oferece acolhimento ou condições reais de permanência.
Patricia Suzuki, diretora de RH da Redarbor Brasil, grupo responsável pelo Infojobs, explica que essa percepção altera a forma como muitas profissionais se posicionam no mercado.
“Vagas não disputadas, projetos não assumidos e promoções não buscadas vão se acumulando, criando uma desaceleração que parece natural, mas não é.”
O desafio também se reflete na liderança. Estudo da Todas Group em parceria com a Nexus aponta que 79% das mães em cargos de liderança já enfrentaram obstáculos de gênero na carreira. Entre mulheres sem filhos, o índice é de 73%.
Sobrecarga e perda de rede de apoio
A maternidade também amplia a sobrecarga emocional e operacional das mulheres. Segundo a pesquisa, 78,4% das mães já desistiram de buscar crescimento profissional devido ao excesso de responsabilidades, enquanto 9 em cada 10 afirmam sentir sobrecarga mesmo em relações estáveis.
Outro dado chama atenção para a diminuição da rede de apoio entre mulheres. Enquanto 45% das profissionais sem filhos relatam ter recebido apoio feminino ao longo da carreira, entre as mães esse número cai para 38%.
Para Mariana Bicalho, fundadora da comunidade Mommys, a lógica ainda imposta às mulheres é incompatível com a realidade da maternidade.
“A mulher é cobrada para performar no trabalho como se não tivesse filhos e cuidar da casa como se não trabalhasse.”
O que as empresas precisam fazer
Especialistas apontam que enfrentar esse cenário exige mais do que cumprir exigências legais. Empresas que desejam avançar na retenção e desenvolvimento de talentos femininos precisam estruturar políticas permanentes de apoio à maternidade.
Entre as práticas mais relevantes estão programas de mentoria para mães, processos de promoção mais transparentes, incentivo à candidatura feminina após a licença, horários flexíveis, retorno gradual ao trabalho, apoio psicológico e benefícios como auxílio-creche e subsídio para cuidado infantil.
A ampliação da licença parental para ambos os responsáveis também aparece como medida essencial para redistribuir o cuidado e reduzir impactos desproporcionais sobre as mulheres.
Mais do que uma pauta individual, a maternidade se consolidou como um tema estratégico para organizações que desejam construir ambientes mais sustentáveis, inclusivos e preparados para reter talentos no longo prazo.
Com informações dos portais G1, Folha de S.Paulo e Você RH
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