Radar da Inclusão 2025 aponta estagnação na carreira de pessoas com deficiência, apesar de avanço nas contratações
O cenário da inclusão de pessoas com deficiência ou neurodivergentes no mercado brasileiro em 2025 vive uma dualidade. De um lado, o cumprimento da cota de contratação subiu de 49% para 54% entre janeiro e outubro, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Do outro, a experiência qualitativa revela barreiras que vão além das arquitetônicas.
O processo de inclusão ainda é marcado por capacitismo estrutural e estagnação. A pesquisa “Radar da Inclusão 2025”, da Talento Incluir com o Pacto Global da ONU e Instituto Locomotiva, mostra que 86% das pessoas respondentes já sofreram capacitismo no ambiente de trabalho.
As agressões incluem comentários inadequados, preconceito da liderança e desqualificação técnica baseada apenas na deficiência. Essa barreira cultural alimenta o “degrau quebrado”, resultando em carreiras estagnadas mesmo para quem possui tempo de casa.
Embora 41% de colaboradoras e colaboradores tenham mais de três anos na mesma empresa, 67% declararam nunca ter recebido uma promoção. Este índice de estagnação cresceu 4 pontos percentuais em relação a 2024, evidenciando a dificuldade de ascensão profissional.
Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir, define esse sentimento como “fadiga de acesso”. Segundo ela, a falta de acessibilidade cansa, atrasa e ainda culpabiliza cada profissional.
“Esses dados expõem o desafio da inclusão na busca por transformar o trabalho não-digno que vivenciamos, tema que permanece à margem de grande parte das discussões sobre diversidade no Brasil”, reforça a CEO.
A exclusão começa antes mesmo da contratação: 78% enfrentaram dificuldades no processo seletivo. Além disso, 70% se sentem desvalorizadas e desvalorizados ao receberem ofertas de vagas abaixo de sua real qualificação técnica, ignorando seu potencial.
Somam-se a isso o despreparo de quem faz o recrutamento e a precária infraestrutura urbana. Cerca de 34% desistiram de vagas por preverem desafios de mobilidade no trajeto, enquanto 26% perderam compromissos por barreiras físicas no caminho.
Esses obstáculos geram impactos emocionais severos, como tristeza e depressão em 37% das pessoas respondentes. A pesquisa ouviu 1.765 participantes em todo o país com 18 anos ou mais, e que se declararam pessoas com deficiência ou neurodivergentes.
O perfil da amostra revela que 52% são mulheres cisgênero e 65% sustentam ao menos metade da renda do lar. Quanto à raça, 55% são pessoas brancas, 33% pardas e 10% pretas, o que expõe gargalos interseccionais profundos para pessoas negras com deficiência.
Quando gênero e deficiência se cruzam, as barreiras tendem a se intensificar. Mulheres com deficiência enfrentam não apenas o capacitismo, mas também desigualdades de gênero que limitam o acesso a cargos de liderança, reconhecimento profissional e desenvolvimento de carreira. Avançar na inclusão exige que empresas olhem para essas interseccionalidades de forma estruturada, garantindo não apenas a entrada, mas trajetórias profissionais possíveis, seguras e dignas para todas as pessoas.
Com informações da Meio & Mensagem
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