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“Podemos aprender com as pessoas mais jovens, e elas conosco”, afirma Carla Leirner

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Foto posada de Sylvia Loeb e Carla Leirner sentadas em uma sala com uma estante cheia de livros.

Mais da metade da população brasileira economicamente ativa terá mais de 45 anos em três décadas. Dados do IBGE compilados na pesquisa Longevidade, organizada pela Fundação Dom Cabral, apontam, ainda, que o Brasil provavelmente será o sexto país mais velho do mundo.

Quando o assunto envelhecimento se cruza com a pauta de gênero dentro do mercado de trabalho, há um quadro ainda mais alarmante. De acordo com a pesquisa Global Learner Survey, realizada pela Pearson em parceria com a Morning Consult, 87% das entrevistadas acreditam que têm menos oportunidades do que homens no mercado de trabalho devido a gênero e idade, e outras 65% afirmam ser uma prioridade abordar e combater o etarismo dentro das organizações.

É nesse cenário que surge o movimento Minha Idade Não me Define, liderado pela psicanalista Sylvia Loeb, 78, e pela jornalista Carla Leirner, prestes a completar 60 anos. Juntas, mãe e filha administram o perfil Escritora no Divã no Instagram, e, recentemente, tiveram um post no LinkedIn sobre o tema, com mais de 400 mil visualizações. Dentre os assuntos que elas abordam está o envelhecimento, principalmente da mulher, de forma intergeracional.

Em entrevista ao Movimento Mulher 360, Carla Leirner conta como surgiu a iniciativa, a importância de incluir pessoas maduras dentro e fora das empresas, e ainda dá dicas para mulheres que desejam fazer transição de carreira nesta etapa da vida. Confira.

MM360 – Como surgiu o Movimento Minha Idade Não me Define?
Ele nasceu por várias razões, dentre elas porque queríamos nos diferenciar dos perfis que falam sobre etarismo e longevidade levando em conta nossas formações – eu como jornalista, e minha mãe como psicanalista, o que nos ajuda a ter um conteúdo mais aprofundado. Além disso, a frase “Minha Idade Não Me Define” é algo em que acreditamos muito. Afinal, nós somos a prova viva de que sim, é possível, não sermos encostadas e nem estarmos fora do jogo mesmo tendo 78 e quase 60 anos. Tudo aconteceu quando o perfil Escritora no Divã, no Instagram, que usamos para falar sobre envelhecimento do ponto de vista de duas gerações, ultrapassou os 40 mil seguidores. Com esse marco, veio o grande desafio de monetizar esse negócio, e decidimos fazer camisetas com a frase “Minha Idade Não Me Define”.

Começamos a falar a respeito também no LinkedIn e, para se ter uma ideia, no segundo ou terceiro post que fizemos, houve mais de 400 mil visualizações. Sentimos como se tivesse um grito engasgado, como se tivéssemos dado voz para mulheres e homens que pensam da mesma forma que a gente e que também se incomodam em serem vistos apenas por suas idades. É uma coisa bem bacana o que conseguimos, afinal, não vendemos uma camiseta, vendemos uma ideia, e quando as pessoas “vestem essa camisa” contribuem para ampliar o debate e derrubar barreiras.

MM360 – Qual a importância de falar sobre o envelhecimento da mulher de forma intergeracional?
Inicialmente o projeto era só da minha mãe. Há dez anos, ela, que é bastante pioneira, criou uma página no Facebook para responder perguntas de seguidores e ir além dos atendimentos que fazia como psicanalista, algo que faz até hoje. Eu, por outro lado, não queria trabalhar com redes sociais, porque achava que não tinha capacidade de atuar nesse formato. Sou jornalista de revista impressa. Vim da Editora Abril, e trabalhei em grandes veículos como Veja, Cláudia, Marie Claire. Nesse período, meu papel era apenas de ajudá-la. No entanto, no ano passado fizemos uma mentoria, e ali colocou-se que ou eu iria para frente das câmeras e apareceria, ou o nosso negócio acabaria. Foi quando entendemos que poderíamos falar sobre envelhecimento do ponto de vista de mãe e filha. Essa é a riqueza de toda nossa história. Eu aprendo demais com a minha mãe. Ela é um baita exemplo de como envelhecer bem.

Com isso, ficou evidente que essa perspectiva intergeracional, independentemente de qual for a idade, sempre pode ser algo muito rico, principalmente se não houver preconceito. Nós temos quase vinte anos de diferença e aprendemos muito uma com a outra, assim como também podemos aprender com as pessoas mais jovens, e elas conosco. É tudo uma questão de troca, e ela passa a ser fundamental para o desenvolvimento dos dois lados, porque só soma e não diminui.

MM360 – A temática do etarismo no mercado de trabalho não é nova, mas ainda é muito pouco debatida mesmo com tantas ações focadas em diversidade e inclusão. Como vencer essa barreira e trazer as empresas e as lideranças para essa discussão?

Eu acho que o movimento Minha Idade Não Me Define contribui para colocar o assunto em discussão justamente por escancarar a nossa potência, por colocarmos a boca no trombone e dizer que nós não somos invisíveis. Estamos apenas no começo do caminho. Sabe aquele ditado popular “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura?”, eu acho que é o que estamos fazendo hoje. Nós, como pessoas maduras, estamos abrindo o caminho para uma geração que vai chegar. Eu acho que já mudou muito. Hoje, por exemplo, existem programas de trainee para pessoas mais velhas. Mas, ao mesmo tempo, é muito desgastante ter que provar todo dia a nossa competência e aqui, além de sermos maduras, somos mulheres, o que infelizmente é entendido como um problema no mercado de trabalho. Para vencer essas barreiras é preciso falar, falar, falar. E, também, considerar que nós vamos virar uma população velha. Ou seja, até quando vamos tapar o sol com a peneira?

MM360 – Que dicas você dá para as profissionais que desejam fazer uma transição de carreira na maturidade?
A primeira dica é procurar alguém que possa ajudar nesse caminho. Depois, estudar sempre, porque o mercado pede atualização. Ficou em casa dez anos cuidando dos filhos e agora quer voltar ao mercado? Tá ótimo. Pergunte-se o que você quer fazer, e vá em busca disso. Estude e faça networking. Vou parecer um pouco clichê, mas é preciso ter perseverança e constância durante o processo, porque às vezes vai parecer que não vai dar certo. Além disso, ache as pessoas certas para te orientar e faça um planejamento. Verifique quanto dinheiro vai precisar guardar durante esse período. É importante ter uma longevidade financeira também, porque hoje a gente vive mais e temos que entender que vamos ter que trabalhar mais tempo e tudo isso conta para a transição de carreira. Também é importante gostar do que faz ou do que se pretende fazer.

Digo tudo isso, porque a minha transição de carreira foi bastante complicada. Não procurei ninguém e eu sabia apenas o que não dava mais para ser. Eu era jornalista como comentei anteriormente, atuava em uma revista semanal impressa, e junto comigo havia uma turma de vinte pessoas. E de um dia para outro, perdi tudo. Na época, eu estava com 54 anos e comecei a enveredar para o marketing digital, que eu detestava. Ainda assim, fui estudando, batendo cabeça e procurando me encontrar. Foi uma coisa muito sofrida, porque eu achei que não daria certo. No começo do ano passado, quando eu assumi realmente o Instagram com a minha mãe, tínhamos só 14 mil pessoas e meus posts recebiam pouco ou nenhum engajamento. E agora, temos quase 50 mil seguidores e o LinkedIn segue a mil. Por isso que eu digo que o segredo está na constância e na perseverança.

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