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“O sistema não enxerga o fato de vivermos em uma sociedade plural, na qual todos partem de lugares e trajetórias diferentes”, diz Camila Novaes.

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O Movimento Mulher 360 sempre se posicionou contra o racismo, dando voz para essa luta da comunidade negra, entendendo o cenário das dificuldades enfrentadas principalmente por mulheres negras no mercado de trabalho. Do ponto de vista da equidade de gênero no mundo corporativo, principal missão do Movimento, esse olhar interseccional é de suma importância.

Recentemente, inclusive, foi realizado um podcast e também um Diálogos entre Associados com o tema “como ampliar a contratação e a promoção de mulheres negras”.

Julho é o mês do dia (25) da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha – um marco para celebrar a força de todas as mulheres negras que construíram e constroem o nosso país e o mundo. Assim, para explorar ainda mais a importância de dialogar sobre o racismo de maneira conjunta com a equidade de gênero, o Movimento Mulher 360 conversou com a Gerente de Client Marketing e líder da frente de Inclusão e Diversidade da Visa do Brasil, Camila Valerio Novaes.

Confira.

MM360 – Há quanto tempo você trabalha na Visa? Como foi sua trajetória na empresa e qual é o principal desafio da sua função atual?

Trabalho na Visa há 4 anos, atuando em três frentes: Client Marketing, onde sou responsável pela estratégia e implantação de ações de marketing com clientes da Visa, Mobilidade Urbana, onde faço parte de um squad e para toda estratégia de comunicação e sinalização da aceitação de cartões em transporte público, e lidero a frente de Inclusão e Diversidade da Visa do Brasil.

A minha trajetória na Visa sempre foi orientada pelo olhar de marketing com o negócio, o que, ao meu ver, faz e tem feito muito sentido na construção de parcerias com os clientes e, principalmente, na construção de todo trabalho que estamos fazendo dentro do comitê de Inclusão e Diversidade.  É, de fato, a junção de propósito com alianças e trabalho – e esse é o desafio, manter essa dinâmica em funcionamento!

MM360 –  Atualmente, como você está engajada com a diversidade racial e de gênero na Visa? E fora da empresa?

Dentro da Visa, lidero a Frente de Inclusão e Diversidade no Brasil, trabalhando em conjunto com mais 24 colaboradores. Na Visa, atuamos na frente de Mulheres (Visa Woman’s Network), Profissionais Negros (Visa Black Employees), Orientação Sexual (Pride LGBTQI+) e Pessoas com Deficiências Visíveis e Invisíveis (Visa Employee with Disabilities).

Temos um comitê bem atuante que se reúne semanalmente para discutir as ações. Nossa jornada começou com uma pesquisa interna com objetivo de mapear o entendimento e grau de maturidade sobre Inclusão & Diversidade dos colaboradores para, então, traçar nosso plano de trabalho que tem diversas ações práticas e metas compartilhadas, desde mentorias,  participação e engajamento em importantes eventos como na parada LGBTQI+, olhar para cadeia de valor, empreendedorismo negro, falas com especialistas do meio acadêmico, associações e corporações com todos os funcionários da Visa no Brasil. 

Fora da Visa, atuei por dois anos na Rede de Profissionais Negros, que tem como missão a conexão dos profissionais negros com o mercado corporativo, e por um ano no Publicitários Negros, que tem, também, a mesma missão, mas com recorte para a área de publicidade e propaganda.  As minhas atuações passaram pela construção de parcerias com empresas, programas de mentoria e encontros de network. Muito do que aprendi nos três anos de trabalho nos coletivos, me ajudou, e ajuda, na atuação de inclusão e diversidade dentro da Visa do Brasil.

MM360 – Quais barreiras você encontrou, como executiva negra, na sua trajetória? Como lidou com essas situações?

No meu caso, encontrei a barreira de gênero e raça, o que faz com que a gente aprenda a lidar com um sistema, que em dados momentos não enxerga o fato de vivermos em uma sociedade plural, na qual todos partem de lugares e trajetórias diferentes.  

MM360 – Como você enxerga a presença de profissionais negros no mercado de trabalho?

Depende do recorte, mas mesmo assim, somos poucos. Partindo do fato que somos mais da metade da população, vamos aos recortes. Segundo o Instituto Locomotiva, através da PNAD 2019, 37% dos negros 25+ têm ensino superior. Quando vamos para a pesquisa realizada com as 500 maiores empresas do Brasil pelo Instituto Ethos, é expressiva a presença de negros entre os aprendizes do grupo de empresas – eles têm participação de 57,5% nesse nível. Quando vamos para os estagiários, 28,8%. Trainees são 58,2%. Nos quadros funcionais 35,7%, decrescendo para 25,9% na supervisão, 6,3% na gerência, 4,7% no quadro executivo e mantendo-se num mesmo patamar no conselho de administração, com 4,9%. Esse percentual cai ainda mais ao fazer um recorte para nós, mulheres negras, em cargos de gerência: 0,4%.

MM360 – Quais são as melhores práticas  para garantir que mais mulheres negras ocupem cargos de liderança?

Olhar para inclusão, dentro e fora do mercado. Dentro, com ações de conscientização com os colaboradores, passando pelo educacional, para que o ambiente seja e esteja preparado para tratar de temas de diversidade de raça e gênero, metas compartilhadas, visibilidade das colaboradoras, mentorias, construção de redes de apoio, para que assim haja garantia de que teremos mulheres negras em posições estratégicas.  E suporte na equidade, seja com investimentos em bolsas de estudo, mentorias, redes de apoio, curso de inglês, entre outros.  

Importante mencionar que as políticas públicas e a Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos currículos das redes de ensino, também são práticas que fazem parte dessa jornada. Ou seja, não temos uma resposta pronta, mas caminhos que se complementam.

MM360 – No último mês, a pauta do racismo e da diversidade tomou conta das redes sociais, e gerou, também, um movimento intenso de posicionamento de marcas com relação a esses assuntos. Como isso pode contribuir, de fato, para avançarmos na equidade racial e de gênero como sociedade?

Os últimos acontecimentos trouxeram ainda mais luz ao tema, que é recorrente na sociedade brasileira, de uma forma que algumas marcas e empresas posicionaram-se a respeito. Vejo como uma oportunidade de “abrir os ouvidos” da sociedade para um maior entendimento e sensibilização ao tema e, consequentemente, ver avanços. O que percebemos é que determinadas situações antes não lidas como racismo, passam a ser percebidas como tal e isso irá colaborar para um melhor entendimento de ações e atitudes racistas. Existe uma mobilização, mas ela precisa ser contínua.

MM360 – Diante desse cenário, Al Kelly, CEO da Visa, fez um pronunciamento falando que não é possível controlar tudo o que acontece na América, mas que a Visa pode fazer a sua parte. Pode nos contar as ações que têm sido feitas contra o racismo dentro da empresa?

A Visa está empenhada em fazer mais para ajudar a impedir a discriminação e a injustiça racial na América. Para esse fim, e como início dessa jornada, nos comprometemos com cinco ações:

– Estabelecimento do programa Visa Black Scholars and Jobs

A Visa estabelecerá um fundo de US$ 10 milhões para criar um programa dedicado à assistência de bolsas de estudo nos próximos cinco anos, especificamente para estudantes negros e afro-americanos vinculados a faculdades. Após a formatura, todos os beneficiários que cumprirem seus compromissos terão um emprego em tempo integral na Visa. Esse é um passo importante no investimento de longo prazo em estudantes negros e afro-americanos, e no aumento da representação de negros e afro-americanos na Visa.

Match duplo de doações para apoiar a justiça social e a igualdade

Dobraremos as doações de funcionários da Visa durante o mês de junho, em até US$ 1 milhão, para as seguintes organizações que apoiam a justiça e a igualdade raciais: oFundo de Defesa e Educação Legal da NAACP, que apoia a justiça racial por meio da advocacia e educação, a ACLU, União Americana pelas Liberdades Civis, que fornece serviços jurídicos e suporte em uma ampla gama de questões de direitos civis, a National Urban League, que é uma organização histórica de direitos civis, dedicada ao empoderamento econômico, à igualdade e à justiça social.

– Mais conversas com a comunidade Visa

Começando com uma reunião da comunidade organizada por nossos Chief Human Resources Officer e Chief Diversity Officer, realizaremos uma série de fóruns abertos para conversas sobre igualdade racial, relações raciais, inclusão, diversidade e tópicos relacionados.

– Ajuda aos colegas que precisam

Entendemos que este é um momento extraordinário de estresse e desafio para nossos funcionários negros. A Visa está oferecendo suporte externo à nossa comunidade por meio de serviços de aconselhamento 24 horas por dia, 7 dias por semana, com o nosso Programa de Assistência ao Funcionário.

– Ajudando nossos líderes a se engajarem em justiça social

Estamos fornecendo orientação e direção aos líderes da empresa para facilitar um diálogo contínuo significativo com suas equipes, e especificamente com funcionários negros — para ajudar a garantir que sejam vistos e ouvidos, e para continuar fazendo o trabalho árduo de construir uma cultura aberta e inclusiva para todos.

Na Visa, somos uma comunidade unida para fazer nossa parte para melhorar a inclusão, aumentar nossa diversidade e nos ajudar a lidar com esses tempos terrivelmente difíceis. Juntos, podemos ser uma força poderosa de mudança.

MM360 – Que dicas você dá para mulheres jovens e negras que estão entrando no mercado de trabalho com ambição de chegar em cargos de liderança?

Crie e construa redes de contato. Isso é possível participando de grupos como a Rede de Profissionais Negros, Publicitários Negros etc… Participe de eventos promovidos pelas frentes de Inclusão & Diversidade das empresas. Olhe para essa rede e veja quem você entende ou enxerga como líder, e peça para ser mentorado, peças dicas, agende um café virtual. É importante se conectar com as pessoas e construir essas relações em rede.

Recentemente, recebi de uma amiga, o vídeo da Carla Harris que traz um ponto bem interessante sobre como achar alguém que possa te ajudar a dar o próximo passo da carreira. 

Confira o vídeo aqui.

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