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“Empresas devem criar estruturas internas de suporte às vítimas de violência”, diz Maristella Iannuzzi

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Pesquisa “A violência e o assédio contra a mulher sob a perspectiva corporativa”, realizada pelo Instituto Maria da Penha, Instituto Vasselo Goldoni e a Consultoria Talenses com apoio da ONU Mulheres, no segundo semestre de 2019, com profissionais de RH de mais de 300 empresas, aponta que apenas 25% das empresas oferecem suporte às colaboradoras que sofrem algum tipo de violência.

Segundo o levantamento, os principais motivos para que as organizações não façam esse monitoramento são porque a pauta não está na agenda prioritária (33%), falta de apoio da liderança (12%) e há dificuldade em mensurar e controlar (12%). Em contrapartida, 68% dos participantes afirmaram acreditar que a violência doméstica sofrida por colaboradoras é um problema que a empresa deveria encaminhar.

Para auxiliar as empresas a atuarem mais ativamente no enfrentamento da violência e no apoio às mulheres que são vítimas de agressões, foi criada a plataforma Rota VCM – União de Forças pela Vida da Mulher.

“As agressões têm impacto negativo no desempenho profissional e econômico. Sem contar todas as consequências psicológicas que influenciam e trazem consequências para a carreira das mulheres como menor estabilidade, menor tempo de permanência em seus cargos e, também, menor produtividade”, diz em entrevista ao Movimento, a Co-Founder da CMI Business Transformation e Consultora ONU Mulheres, Maristella Iannuzzi.

“Precisamos nos envolver e o mundo corporativo é um dos maiores influenciadores da sociedade. Ele tem grande poder de conscientizar e educar seu universo de colaboradores e da sua cadeia”, complementa.

Confira a entrevista na íntegra:

MM360 – Quais os impactos da violência contra a mulher no ambiente corporativo?

Impacto negativo no desempenho profissional e econômico. De acordo com a pesquisa realizada pela Universidade Federal do Ceará e do Instituto Maria da Penha, mulheres vítimas de violência deixam de trabalhar 18 dias ao ano apenas por conta de agressões sofridas em casa. Sem contar todas as consequências psicológicas que influenciam e trazem consequências para a carreira delas como menor estabilidade, menor tempo de permanência em seus cargos e, também, menor produtividade.

MM360 – Por que o assunto da violência doméstica deve ser abordado e fazer parte da agenda das empresas?

Apesar de termos no Brasil a terceira melhor Lei de Proteção à mulher do mundo, a Lei Maria da Penha, vigente há 13 anos, as nossas políticas públicas ainda não foram eficazes no combate às agressões às mulheres. Apesar dos avanços nas discussões acerca desta temática, ainda existe um longo caminho a ser percorrido para que haja pleno respeito a elas e seja erradicado qualquer tipo de violência, solidificando a equidade e justiça. Os números de casos aumentam a cada dia e temos que criar ações efetivas e genuínas para preservarmos a vida.

Pesquisa feita pela Plataforma Rota VCM em outubro de 2019, com 311 empresas, apontou que este tema não faz parte da agenda das companhias. As poucas que já iniciaram esta conversa têm foco apenas em ações ocorridas dentro da empresa, em horário comercial.

Precisamos nos envolver e o mundo corporativo é um dos maiores influenciadores da sociedade. Ele tem grande poder de conscientizar e educar seu universo de colaboradores e da sua cadeia.

MM60 – De que maneira o mercado corporativo pode prestar apoio e ajudar a eliminar a violência contra as mulheres?

Temos que abrir a agenda e ir além da equidade de gênero. As empresas devem criar estruturas internas de suporte e proteção. Como, por exemplo, um canal interno em qual as colaboradoras possam manifestar possíveis agressões e receber orientações de como proceder. Para que essa ação tenha sucesso é preciso que o canal tenha credibilidade e seja acolhedor. Outra ação importantíssima é a conscientização que pode ser feita por meio de orientações sobre a legislação, a inclusão do tema quando se fala de ética e Compliance, além de uma comunicação interna clara e objetiva mostrando tolerância zero sobre o tema.

MM360 – Como surgiu e o que é a plataforma Rota VCM? 

A ideia nasceu em abril de 2019, após a realização do 1º Fórum do IVG, em São Paulo, onde estiveram reunidos representantes de RHs de grandes empresas e parceiros engajados na luta pelos direitos das mulheres.

A pedido dos profissionais que participaram do evento e para mostrar como a iniciativa privada, especificamente o mundo corporativo, pode se envolver de maneira proativa a respeito da violência sofrida pelas mulheres foi criada a Rota VCM – que representa a VIDA e a CORAGEM da MULHER. O que era para ser apenas uma cartilha de combate à violência contra a mulher, se transformou em uma plataforma digital e viva.

O projeto contou, no início, com quatro grandes apoiadores e, hoje, somos, felizmente, muito mais! Tivemos o apoio financeiro da Levee, gestão e criação da CMI Business Transformation e do Demarest Advogados. A produção do conteúdo foi feita pela Think EVA e tivemos também mentoria da ONU Mulheres.

Hoje, a coordenação da Rota VCM é feita por mim, pela Edna Vasselo Goldoni, Maria Helena Bragaglia e Ivana Mozetic. O comitê de conteúdo é composto pela equipe do Think Eva. Para mostrar a força da missão deste lançamento, a Rota VCM apresentou uma pesquisa feita com 311 empresas, com foco no olhar do mundo corporativo sobre a violência doméstica e o assédio. A ação foi coordenada pela Talenses com o apoio do Instituto Maria da Penha e do Movimento Mulher 360.

MM360 – De que maneira as empresas podem utilizar o site?

O conteúdo disponível na Rota VCM tem como propósito ser uma ferramenta de apoio a programas corporativos. É uma forma também de incentivar que a pauta seja levada para as empresas. É a união de forças pela vida da mulher.

Para facilitar o entendimento e acesso a tanta informação, o material foi dividido em pílulas:Mulher, O Problema, Homem, Empresa e Amigos/Família. A perspectiva da MULHER está no centro de tudo. Sem deixar de dialogar com todos que estão ao redor da vítima da violência e que podem atuar para salvar uma vida.

Um dos pontos importantes da Rota VCM é a inclusão da figura masculina ao lado da mulher nesta luta. Trata-se de uma estratégia essencial para estancar o alto número de casos de violência registrados atualmente no País.

MM360 – Você pode citar algumas práticas que já indicam resultados positivos nas empresas?

Já temos casos de sucesso no portal, relatados por empresas como Carrefour, Magazine Luiza e Sodexo. Cada um deles traz as ações realizadas pelas organizações com foco em três visões estratégicas: prevenção, intervenção e suporte.

Na primeira delas, fala-se sobre o uso dos canais internos de comunicação, como intranet e e-mail, para repassar semanalmente a toda a força de trabalho mensagens sobre o tema. Já a segunda trata sobre a manutenção de um canal telefônico que se destina a receber relatos sobre vários assuntos, entre eles, casos de violência contra a mulher – tudo de maneira confidencial. A última parte para a orientação psicológica, jurídica e financeira às vítimas de violência por meio de um canal telefônico.

Uma resposta para ““Empresas devem criar estruturas internas de suporte às vítimas de violência”, diz Maristella Iannuzzi”

  1. Iniciativa das mais importantes, aponta as perspectivas de mudança de cenários e comportamentos vindouros, ainda que também seja possível perceber resistências relacionadas à baixa escolaridade e a educação, como fatores estruturais que carecem de alterações urgentes. Parabéns. Meu total apoio! Eu que sou filho nascido de mulher quero estar nesta luta!

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