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“Diversidade é considerar a história que constitui o colaborador e como isso pode agregar”, afirma Lisiane Lemos

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Empoderar cada pessoa e organização a fazer mais pela igualdade racial e políticas de diversidade. Essa é uma das missões de Lisiane Lemos, especialista em soluções na Microsoft, eleita uma das pessoas negras mais influentes do mundo na categoria empreendedorismo do Most Influential People of Africa Descent (MIPAC), da ONU. A advogada já esteve também na lista de jovens de impacto da revista Forbes.

Lisiane participou da fundação do Blacks at Microsoft no Brasil, movimento global que completará 30 anos em 2019 no apoio à política de inclusão de pessoas negras na empresa.

A especialista sabe, na prática, o que diversos estudos têm comprovado: a diversidade impacta positivamente o negócio. E defende que a inovação será feita por mãos que se complementam e por mentes que agregam conhecimentos incomuns.

“Meu melhor business case de diversidade sou eu mesma, porque posso mostrar pela minha vivência que ser de uma cidade diferente, ter experiências diferentes, pertencer a várias minorias e viver com propósito traz ganhos e inovação para a empresa”, conta a profissional em entrevista ao Movimento Mulher 360. Leia na íntegra.

MM360 – Quando você começou a trabalhar na Microsoft? Qual é o principal desafio da sua função atual?

Entrei na Microsoft em 2013, por meio do programa para recém-graduados (MACH), como representante de vendas para contas governamentais. Foi uma experiência ótima pois pude aliar meu conhecimento jurídico e de vendas. Hoje sou especialista em soluções de suporte, na área de Serviços. É um recorte bem específico. Meu cargo alia conhecimento técnico a vendas. Sou responsável por apresentar o novo modelo de Suporte da Microsoft para uma gama de clientes selecionados, de forma a apoiá-los em sua jornada de transformação digital. O principal desafio é trazer uma solução global para um contexto local, em um cenário economicamente complexo, que é o que vivemos. Entretanto, estamos desenvolvendo relações de parceria com os nossos clientes e tem dado muito certo.

MM360 – Como foi o seu desenvolvimento na empresa? Conte a sua história de desenvolvimento profissional e desafios.

Quando comecei na empresa, eu era representante de vendas. Nesses cinco anos, ocupei os cargos de executiva de contas e vendas internas, até assumir minha atual função como especialista de solução. Como ingressei na Microsoft em um momento de total mudança, acabei me transformando positivamente como profissional. Vejo que ingressei na empresa sabendo 10% do que sei hoje sobre tecnologia.

A empresa hoje segue o conceito de Growth Mindset (mentalidade do crescimento), criado pela psicóloga americana Carol Dweck, professora de Stanford. Segundo esse conceito, a imagem que cada um tem de si define como nos posicionamos diante de desafios, de dificuldades, de riscos: ou nos vemos como ‘prontos’, como se soubéssemos tudo e não precisássemos mudar, ou julgamos que podemos aprender sempre mais e mudar à medida que evoluímos com as experiências que vivemos. A segunda atitude corresponde à mentalidade do crescimento, que nos estimula a assumir riscos e a nos desenvolver com eles e com uma abertura maior à diversidade.

Até o momento entendo que meu maior desafio foi desempenhar um cargo de vendas sob diferentes ângulos. Nesses 5 anos de empresa atendi mais de 300 clientes e mudei de posição quatro vezes dentro da organização de serviços, o que parece instável em um primeiro momento, mas sempre baseado em uma busca pelo novo, pelo que me faz aprender todos os dias e é como eu me sinto hoje.

MM360 – Atualmente, como você está engajada com a diversidade racial e de gênero no ambiente corporativo? Participa do Black At Microsoft? Conte um pouco mais sobre a iniciativa.

Compartilho a missão da Microsoft, que combina muito com o meu engajamento atual: empoderar cada pessoa e cada organização a fazer mais. Vejo que a melhor forma de realizar essa missão é fazer as perguntas difíceis para a liderança das empresas e estar aberta ao diálogo, além disso eu sou uma pessoa extrovertida e adoro palestrar. Então uni minhas paixões e a oportunidade dada pela Microsoft para trazer a pauta da diversidade no mercado corporativo.

No meu último TEDx falei que meu melhor business case de diversidade sou eu mesma, porque posso mostrar pela minha vivência que ser de uma cidade diferente, ter experiências diferentes, pertencer a várias minorias e viver com propósito traz ganhos e inovação para a empresa. Assim como a Microsoft, eu acredito que diversidade é muito mais do que classificar pessoas nos grupos que estamos acostumados (LGBTi, PCD, Negros e Mulheres), é considerar a história que constitui o colaborador e como isso pode agregar. Sabemos que a forma tradicional de fazer negócios não funciona mais, e, como diz nosso CEO, Satya Nadella: “Nossa indústria não respeita tradição, respeita inovação”. E essa inovação será feita por mãos que se complementam e por mentes que agregam conhecimentos incomuns.

Participei da fundação do Blacks at Microsoft no Brasil e hoje me sinto muito orgulhosa do que coletivamente construímos. Globalmente, o grupo fará 30 anos em fevereiro de 2019 e é interessante ver que a iniciativa é mais velha que eu (risos).

O foco local é recrutar profissionais negros e desenvolver talentos que já temos dentro da empresa, que a meu ver são os pilares que constituem uma política de diversidade sólida e efetiva.

Atualmente, o BAM é formado por colaboradores da Microsoft, que participam voluntariamente do grupo. A Microsoft Brasil possui ações para contratar, promover e valorizar os negros. Entre essas iniciativas estão:

– O recrutamento de profissionais negros para posições de liderança e também de estágio, para desenvolver jovens talentos;

– Assinatura da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, em 2016, promovida pela AfroBras e pela Universidade Zumbi dos Palmares, que reflete sobre como alcançar avanços mais significativos na presença do público negro no âmbito empresarial. O documento já foi assinado por diversas empresas como Coca-Cola, Carrefour e PWC.

MM360 – Você foi uma das brasileiras premiadas no Most Influential People of Africa Descent (MIPAD). Quais passos foram trilhados para conquistar essa premiação?

Tive o prazer de receber esse prêmio como um reconhecimento por tudo que estamos conquistando nos últimos anos. Educação sobre igualdade sempre foi algo cotidiano na conversa com a minha família e entendo como minha missão no mundo para fazer a diferença. Sempre quis reproduzir o modelo inspiracional que minhas avós, meus pais e meus professores tiveram na minha vida. Todo esse apoio foi um grande estímulo para minha formação profissional – do diploma às lutas nas quais me envolvi e aos desafios que aceitei encarar.

MM360 – Sabemos que as mulheres negras enfrentam desigualdades diferentes, tendo em vista a interseccionalidade de gênero e raça. Poderia contar os desafios que enfrentou e como fez para superá-los?

É importante iniciar essa resposta dizendo que, além dessas interseccionalidades, eu sou uma jovem trabalhando no mercado de tecnologia, o que torna o recorte ainda maior. Generalizando, creio que o que traz mais incômodo são as micro agressões. Abrir um jornal ou revista e só enxergar negros nas páginas policiais, ver materiais de publicidade estereotipados, produtos de beleza feitos pra um tom de pele que não é o meu, não me enxergar na cadeira da presidência, ser invisibilizada em discussões e fóruns importantes ou ter meu conhecimento técnico questionado porque tenho pouca idade. Entendo que se efetuarmos essas pequenas mudanças, o impacto será maior do que casos de racismo explícito, que devem ser tratados criminalmente, mas infelizmente são facilmente esquecidos. Minha superação é diária.

MM360 – É casada? Tem filhos? Como foi o retorno da licença-maternidade e quais foram os principais desafios?

Sou recém-casada e eu e o meu marido nos identificamos como parceiros. É muito importante tê-lo apoiando as minhas pautas sociais e reconhecendo seu lugar de privilégio. Temos muitas discussões em que ele traz o lado que eu não enxergo enquanto não negro. Não tenho filhos ainda, mas com certeza está nos meus planos. Sou muito (muito mesmo) família.

No ambiente empresarial, eu tenho um compromisso com as mães que trabalham comigo. Entendo que é importante ser solidária, e, mais do que isso, ter exemplos a minha volta. No meu caso, a nossa presidente, Paula Bellizia, é um modelo de profissional que exerce a maternidade e a liderança com maestria.

Observando de forma externa, penso que o maior desafio no retorno da licença maternidade/paternidade é a mudança da mentalidade. O centro da vida – pelo que 100% das pessoas que eu perguntei me falaram – passa a ser o filho, não mais a carreira. Então, uma nova forma de equilíbrio tem de ser desenhada. Sobre o trabalho, em 6 ou 7 meses, podem acontecer inúmeras mudanças dentro das organizações como, por exemplo, novos líderes, novas responsabilidades e, às vezes, até uma nova cultura.

Admiro muito empresas que tem uma política de um sponsor para mães que retornam, responsáveis por reapresentar a empresa para a pessoa e as mudanças. A Microsoft oferece 180 dias corridos de licença para mães – para casos de nascimento ou adoção de crianças de até 16 anos. As colaboradoras podem tirar férias após esse período, que é 100% remunerado. A licença se estende à comunidade LGBTi. Também oferecem 42 dias corridos de licença para pais em casos de nascimento ou adoção de crianças de até 16 anos. Assim como na licença-maternidade, os colaboradores podem tirar férias após o período da licença, que é 100% remunerada e colaboradores LGBTi também podem utilizar a licença.

MM360 – Quais iniciativas que a empresa ofereceu que ajudaram no avanço de sua carreira?

A Microsoft vem passando por um forte processo de mudança cultural e eu ingressei exatamente neste momento. Desde que Satya Nadella assumiu como CEO, em 2014, um trabalho intenso de cultura começou, que trouxe o Growth Mindset e Diversidade e Inclusão como pilares do nosso trabalho. Tenho absoluta certeza que esta mudança pavimentou o meu crescimento profissional, porque estava em um ambiente que incentivava o trabalho colaborativo e o aprendizado constante.

Tecnicamente, temos uma carga ampla de qualificação com treinamentos online, presenciais e muitos no exterior. Além disso, a empresa me apoiou para que eu pudesse realizar meu MBA em Gestão de Tecnologia.

A Microsoft tem várias movimentações internas de pessoas que se aprofundam na carreira técnica, com experiência em vendas, marketing ou até mudam de área. Essa perspectiva de aprendizado e de valorização de diferentes aspectos traz motivação e nos estimula a desafiarmos nosso potencial.

MM360 – Acredita que as mulheres estejam mais empoderadas nas empresas? Como tornar o ambiente mais equitativo para mulheres, especialmente as negras?

Percebo que hoje as mulheres estão mais informadas sobre os seus direitos e percebo que há uma união da classe, fortemente estimulada graças ao acesso às redes sociais e grupos de atuação. Acredito que as empresas precisam prestar mais atenção e abrir portas para as pessoas. Essa educação tem que vir de dentro. Somos instruídos a ser independentes, sozinhos e algumas vezes até solitários. Eu não teria chegado aqui sem ajuda de muita gente, profissionais negros e não negros. Ter um plano de carreira, um objetivo e metas claras é primordial. O mercado está mudando para melhor e a tecnologia é o meio.

Se a pessoa que nos lê quer mudar o ambiente, minha dica é simples: traga pessoas que pertencem a minorias para falar de assuntos técnicos. Falar de Diversidade e Inclusão é importante, mas precisamos provar que existem profissionais capacitados em suas áreas para ocupar posições nas empresas. Que tal trazer mulheres para falar de indústria? Negros para falar de inteligência artificial? Estudantes para falar de liderança? Trazer palestrantes que não vivem nos grandes centros?

MM360 – Deixe uma dica para jovens mulheres que estão entrando no mercado de trabalho com ambição de chegar em cargos de liderança.

Compartilhe conhecimento e estejam abertas a aprender. Estamos em uma sociedade que cada vez mais valoriza colaboração. Todos nós temos algo a compartilhar, seja conhecimento técnico ou experiência de vida. Quando você compartilha e outra pessoa também o faz, um novo aprendizado se desenvolve e conseguimos inovar.