Ir para o conteúdo [1]

“Lidere a si e aos outros como se o mundo dependesse disso”, diz Leila Luz, da BASF

Compartilhe:

Conectar pessoas e tratar de temas estratégicos. Essas são algumas das especialidades de Leila Luz, consultora de comunicação corporativa da BASF para a América do Sul.

Com uma trajetória profissional de mais de 8 anos, a executiva foi responsável pela comunicação interna para mais de 5 mil colaboradores durante a construção do Complexo Acrílico, considerado o maior investimento da empresa no subcontinente. Também esteve à frente da gestão de crises e do relacionamento com comunidades, governo e associações.

A profissional também é uma das idealizadoras de um grupo de afinidades para aumentar a diversidade racial na BASF, o Black Inclusion Group, uma oportunidade de provocar mudanças no ambiente de trabalho que tem ganhado forças inclusive fora da companhia.

“A transformação que precisamos no mundo não acontecerá amanhã. Precisamos primeiro ser líder de nossos destinos, das nossas vidas e então enfrentar os desafios do mundo empresarial e patriarcal com força de um leão e a delicadeza da essência presente em cada uma de nós”, disse em entrevista ao Movimento Mulher 360. Confira.

MM360 – Sabemos que as mulheres negras enfrentam desigualdades diferentes, tendo em vista a interseccionalidade de gênero e raça. Poderia contar os desafios que enfrentou e como fez para superá-los?

Mulher, negra e nordestina em uma cidade como São Paulo e trabalhando em área com tanta visibilidade como a comunicação corporativa são parte dos meus desafios diários desde o momento que acordo e preciso reafirmar minha autoestima diante do espelho, quando passo por anúncios de produto que consumo e não me vejo, até chegar na empresa e nem sempre ter certeza se o que pautam as decisões da minha carreira são minhas entregas ou o viés inconsciente de quem estou dialogando.

Já me vi em situações de racismo em diferentes ambientes que poderiam ter freado minha vontade de estar aqui e de vencer. Já me vi “atenuando” meu sotaque para ser ouvida em reuniões onde o primeiro comentário ou é relacionado ao meu cabelo ou a “preguiça” ao baiano (que algumas pessoas não sabem o quão racista e xenofóbico também é este tipo de comentário).

Tenho oportunidade de participar de eventos externos e benchmarks e ainda me surpreende a ausência de líderes negros, sejam em cargos executivos e, principalmente, nas áreas de comunicação e relações institucionais.

Entretanto, contar com minha família me encorajando a aceitar todos os desafios de peito aberto, conhecer outras pessoas negras de tantos grupos dentro e fora da BASF com os mesmos desafios e dores, trabalhar em uma empresa com líderes inspiradores e que também me empoderam a fazer mais e melhor seja no meu trabalho ou na criação do Black Inclusion Group, são as fontes onde busco força para superar estes desafios. Um dia de cada vez. Todo dia cada vez melhor.

MM360 – Quais iniciativas que a empresa ofereceu que ajudaram no avanço de sua carreira?

Algo muito interessante na BASF são as ferramentas de desenvolvimento ofertada a todos. Porém, acessá-las e desenvolver a própria carreira é uma responsabilidade individual. Eu usei tudo e mais um pouco ofertado pela BASF. Desde o trabalho com mentores que admiro na América do Sul, tive um mentor na Alemanha por meio da plataforma “Ment for Me” até os treinamentos específicos e de competências.

Essas ferramentas são importantes, mas buscá-las, tirar o melhor proveito e contar com líderes apoiadores foram decisivos para alcançar as etapas que desejei em minha carreira.

MM360 – Atualmente, você está à frente do Black Inclusion Group, grupo de afinidade para aumentar a diversidade racial na empresa. Como tem sido a experiência e quais os principais desafios da temática?

O BIG era um sonho pessoal que consegui realizar na BASF. Em parceria com Yasmin Porto, colega da área de negócios, conversávamos informalmente quando eu ainda morava na Bahia e, em 2017, já morando em São Paulo, nós iniciamos a abordagem sobre o tema de diversidade com o RH e então lançamos o grupo oficialmente em novembro.

Admito que não esperava um grupo de apoio tão grande dentro da companhia. De estagiários que nos procuravam para mentoria à outras pessoas negras que viam no grupo a oportunidade de trazer discussões mais amplas e inclusivas sobre diversidade, vi no BIG a possibilidade de causar no nosso “microambiente” a transformação que gostaria de causar no mundo.

Após a formação do grupo, tive a oportunidade de participar da matéria do Valor Econômico publicada em maio de 2018 – ano onde o Brasil completa 130 de abolição da escravatura – reconhecendo a mim e o grupo como as “Novas faces da negritude”, a geração que está desafiando o racismo estrutural por meio das nossas ações em diferentes espaços. Ali tive noção do tamanho do movimento que estávamos liderando e que não tinha mais volta.

Sou voluntária neste trabalho e um dos maiores desafios é ter empatia das pessoas brancas em se verem como parte do problema, não somente “apoiadores” da causa. Entender-se como parte de uma problemática, perceber o próprio privilégio, questionar o viés inconsciente em diferentes contextos são e serão por algum tempo os desafios da temática da diversidade racial e, por isso, as atividades educativas que promovemos no BIG são tão importantes neste processo de sensibilização para que que as ações propostas sejam efetivas no contexto organizacional.

MM360 – Acredita que as mulheres estejam mais empoderadas nas empresas? Como tornar o ambiente mais equitativo para mulheres, especialmente às negras?

Falar da inclusão de mulheres e ter um olhar cada vez mais interseccional dentro das empresas – sobre a mulher com deficiência, a mulher trans, a mulher negra, a mulher em seus diferentes contextos – é uma conquista da luta de gênero que só reforça a importância de tantas outras pautas e como estas não estão dissociadas. Falar em diversidade sem interseccionalidade não tem a ver com inclusão, é egoísmo mesmo. Por isso, nos reunimos mensalmente com todos os grupos e olhamos as oportunidades e desafios em conjunto – respeitando as especificidades, mas endereçando todas com a mesma relevância e aprendendo uns com os outros.

Por isso, além de participar do grupo de negros, ter grupos de mulheres onde as demais pautas também estejam presentes, se apropriando positivamente pelo espaço criado pela discussão de gênero, é de extrema importância para que tenhamos mais mulheres em posições representativas nas organizações e MAIS mulheres negras, trans, com deficiência e por aí vai.

MM360 – Deixe uma dica para jovens mulheres que estão entrando no mercado de trabalho com ambição de chegar em cargos de liderança.

Seja dona de si, da sua carreira e dos espaços que frequenta. Empodere-se, levante-se todos os dias e faça acontecer. Vivemos uma estrutura que não está dada para nós, que não nos beneficia, nos silencia, nos objetifica e nos violenta diariamente. Então, diante disso, não se cale. Entenda as estratégias do mundo ao seu redor e, enquanto ele não mudar, jogue o jogo, seja três vezes melhor e abra caminhos para os seus.

A transformação que precisamos no mundo não acontecerá amanhã, mas precisa que nós, mulheres negras, estejamos conectadas em energia, força e vontade de vencer para que novos rumos sejam traçados para outras irmãs que estão por vir. Precisamos primeiro ser líder de nossos destinos, das nossas vidas e então enfrentar os desafios do mundo empresarial e patriarcal com força de um leão e a delicadeza da essência presente em cada uma de nós.

Empodere outras mulheres, abra caminho para outras pessoas negras. Lidere a si e aos outros como se o mundo dependesse disso, pois, acredite, ele depende da responsabilidade de quem está quase lá.