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“Carrefour foi o primeiro lugar a respeitar minha nova identidade de gênero”, diz analista da empresa

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Por Gabriela Valera*

Estava na faculdade quando eu me aceitei mulher transexual. Ainda não sabia como iria levar o tema aos meus superiores do estágio que fazia. Morava em uma cidade do interior de São Paulo onde o preconceito era e ainda é muito grande e as pessoas não têm conhecimento necessário sobre a questão trans. Escolhi fazer a transição em silêncio. Optei em não contar aos meus gestores na época e para nenhum dos empregos que passei durante essa fase.

Apenas amigos e psicóloga tinham conhecimento que eu estava realizando um tratamento hormonal e que me assumiria como mulher trans. A minha aparência mudou no meu último trabalho no interior, em meados de 2017. Era redatora responsável por todo conteúdo de uma revista de circulação regional.

Já me vestia como mulher e usava nome social e a agência para qual trabalhava perguntou se eu gostaria de usar meu nome social nos créditos da revista. Fiquei bem feliz com a consciência que eles já tinham sobre a causa e sobre minhas mudanças. A partir disso, ganhei confiança para enviar currículos usando meu nome social e encarando entrevistas como uma mulher.

Reconheci o Carrefour como uma empresa que valoriza a diversidade por meio de postagens no Facebook com mulheres trans nas lojas da rede e, desde então, eu me interessei em fazer parte desse time. Eu também me senti acolhida e respeitada desde o processo seletivo até toda a tramitação necessária para a entrada na empresa. Passei a perceber que as pessoas realmente estavam me enxergando como uma mulher, independentemente do gênero que eu era.

O Carrefour foi o primeiro lugar que tive minha nova identidade de gênero respeitada. Antes, eu estava no processo de transição, tomando hormônios, mas ainda usava o nome de registro para evitar constrangimentos. Tive muita dificuldade de encontrar emprego fixo no início da transição. Isso porque a minha aparência causava confusão nas pessoas e principalmente nos recrutadores, mesmo apresentando um bom currículo, com experiências válidas e que agregariam à empresa. Durante esse período, acabei trabalhando com freelas dentro e fora da área de formação.

Eu me sinto segura profissionalmente no Carrefour. No meu trabalho como analista, eu recebo demandas diárias de trabalho e transito por muitos setores: desde negociações e reuniões com fornecedores externos até planejamento e execução de grandes campanhas. Eu me sinto na obrigação de me doar e fazer o melhor sempre, e meus gestores não abrem mão de me passarem funções que exigem postura e responsabilidade.

Estou bem satisfeita com a oportunidade e pretendo abraçar outras tantas que vierem dentro da empresa. Sei que tenho muito a aprender e a crescer aqui dentro – ainda mais vindo de áreas diferentes do varejo. O contato com diretores, gerentes, coordenadores e demais colaboradores enriquece minha experiência. Quero me tornar uma referência dentro da área de Marketing ou qualquer que seja a área que eu esteja dentro da comunicação. Se possível, sair pelo mundo a fora contando minhas experiências e incentivando pessoas a acreditarem nas questões LGBT+.

Nesse caminho, tenho integrado o grupo LGBT+ do Carrefour ainda de forma tímida e participado de eventos juntamente com o setor de diversidade, contando um pouco da minha história profissional. Discutimos ações para propagação da causa e pensamos em como conscientizar mais empresas.

Acredito que questão da profissional transexual no mercado de trabalho tem muito o que evoluir. A mulher trans ainda é vista como um objeto. Muitos nos associam à prostituição ou pensam que conseguimos uma vaga no mercado de trabalho por algum tipo de cota. Quanto mais empresas se sensibilizarem com a causa e investirem na contratação de pessoas trans, mais teremos visibilidade e desmistificaremos as visões sociais impostas. Somos mulheres, somos pessoas, acima de tudo, temos capacidade como qualquer outra pessoa. Faltam oportunidades.

As empresas podem colaborar para um ambiente mais inclusivo e diverso. Pequenas ações podem valer muito. Nome social respeitado, tratamento (se ela se apresentar como mulher, deve ser chamada no feminino), uso do banheiro que se identifica, ações, campanhas e discussões sobre o tema, envolvendo os colaboradores da empresa. De modo geral, queremos ser tratadas como qualquer outra pessoa, sem distinções.

O primeiro ponto para as profissionais que desejam evoluir na carreira é delinear o que querem para as suas vidas. Quais as áreas que elas mais se identificam? É importante que busquem cursos de capacitação, experiências e troquem informações com pessoas que já trabalham em suas áreas de interesse. Agora temos um cenário um pouco mais positivo. Algumas empresas estão atentas e contratando pessoas trans. Você pode receber muitas respostas negativas, mas não pode deixar que isso seja o suficiente para te fazer parar. Saiba que uma hora você será reconhecida(o) se persistir e saber exatamente onde quer chegar.

Quando comecei minha transição, eu não fazia ideia de como iria voltar para o mercado de trabalho, visto que estava sem emprego fixo. Não sabia como seria minha vida dali para frente. Acreditei que uma hora as coisas fariam sentido e dariam certo. Era só continuar tentando. Agora eu me sinto completa como nunca me senti antes: sou uma mulher, trabalho, me sustento sozinha e sou respeitada como profissional. Um dia eu tracei isso como objetivo e hoje faz parte da minha vida.

*Gabriela Valera é Analista de Marketing do Carrefour.