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Como reverter o desligamento de quase 50% de mulheres pós-licença-maternidade

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Você acabou de ser mãe e tem novas prioridades, mudanças no corpo e, principalmente, uma rotina com um bebê. Meses depois, precisa aliar tudo isso com a volta ao trabalho. Empresa, família e a nova mamãe ganham um novo contexto. Com isso, o momento pós-licença-maternidade pode gerar uma série de desafios. Um deles é como manter essas mulheres nas empresas.

Cecília Machado, uma das autoras da pesquisa “Licença-maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil”, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), traz destaques da publicação, que analisou a situação de cerca de 247 mil mulheres, com idade entre 25 e 35 anos, que tiraram licença-maternidade entre 2009 e 2012 no mercado corporativo brasileiro.

“A legislação brasileira assegura por volta de três a quatro meses de estabilidade no retorno da licença-maternidade e, a partir do momento que existe o término desse prazo, há um desligamento de varia entre 40% e 50%”, afirma Cecília, que divide a autoria do estudo com Valdemar Neto, aluno de doutorado da FGV.

De acordo com pesquisa, o índice de mulheres demitidas pós-licença-maternidade também varia conforme a escolaridade. Quanto maior o nível de instrução das profissionais, maiores as chances de permanência no cargo. Já as funções de menor qualificação apresentam os índices mais altos de desligamento.

As demissões ocorrem pelas seguintes causas: rescisão contratual com ou sem justa causa, e, dentro dessas duas possibilidades, há também por iniciativa do empregado ou do empregador.

Políticas além da licença-maternidade

Licença-maternidade estendida é a solução? Nas empresas que concedem os 180 dias de licença, a mesma queda foi encontrada, segundo a pesquisa. É preciso ir além disso, com outras políticas. A publicação afirma que as mulheres precisam de estrutura: políticas de creche, flexibilidade de horários, incentivo da licença-paternidade e da consciência de que a criação de um filho é tarefa compartilhada.

É nesse caminho que as empresas associadas do Movimento Mulher 360 estão direcionando suas práticas de retenção pós-licença-maternidade. A PwC é uma das empresas associadas que investe em ações que vão além da licença-maternidade estendida. “Somos uma empresa que acredita na equidade de gênero e que entende que a maternidade é um momento importante da vida da mulher, e não deve ser um impeditivo de sua carreira”, afirma Júlia Miranda, Supervisora de Carreira e Diversidade & Inclusão da PwC.

Um dos incentivos para as profissionais na PwC é o programa FlexMenu, que traz diferentes modalidades de flexibilidade que podem ser usufruídas individualmente ou combinadas para a customização de um modelo que atenda às necessidades do profissional e da firma. A política abrange horário de trabalho flexível, com início da jornada de trabalho entre 7h e 10h, e encerramento entre 16h30 e 19h30; reorganização da jornada de trabalho de 40 horas, de forma que a carga horária permita a compensação para o descanso de até um dia durante a semana; e a possibilidade de trabalho remoto, de casa ou de outro local apropriado, por até duas vezes por semana.

Outra política que apoia a estabilidade das mães que retornam ao trabalho é a repetição de rating. Profissionais que tiveram avaliação 1 ou 2 (excelente ou excedeu as expectativas) no último ciclo de performance, que estiveram de quatro a seis meses contínuos em licença-maternidade durante o ciclo de performance anterior ou de três a seis meses em licença médica, não tenham sido transferidos de área e não tenham usufruído da mesma política no ano anterior, têm o direito de, caso queiram, optar por garantir a repetição do rating anterior.

Além das práticas corporativas que buscam manter as mulheres no mercado de trabalho pós-licença-maternidade, a questão cultural do país é um fator que precisa ser evoluído. Nos países como a Noruega, por exemplo, há licença paternal com cota. “Quem tira primeiro é a mãe e quem tira por último é o pai, mas se ele não tira os quatro últimos meses, por exemplo, eles perdem os quatro meses. As duas partes são responsáveis e não há discriminação, pois sabem que os dois vão tirar”, afirma Cecília Machado, pesquisadora da FGV.

O equilíbrio de atividades entre pais e mães é um dos caminhos para a evolução desse cenário. “Enquanto as mulheres lutam por espaço nas empresas, os homens precisam ocupar seu espaço também nas tarefas domésticas. Um mundo 50-50 só é sustentável se o atingirmos dentro e fora das organizações. Enquanto as mulheres ainda forem responsáveis por 80% das tarefas domésticas e cuidado com os filhos, haverá essa complexidade na retenção pós-licença-maternidade”, completa Júlia Miranda, da PwC.