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E-book mostra caminhos para a promoção de equidade de gênero nas empresas

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No final de julho, a UPWIT — Unlocking the Power of Women for Innovation and Transformation ou Destravando o Poder das Mulheres para Inovação e Transformação -, em parceria com a Cia de Talentos, lançou o e-book “Mulheres líderes na tecnologia: como promover a equidade de gênero e reter talentos nas empresas”.

A publicação reúne insights para contratação, retenção e apoio de mulheres que atuam ou pretendem atuar na área de tecnologia. “O papel do e-book foi apresentar alguns caminhos para que as mulheres, universidades, empresas e comunidades promovam de fato equidade de gênero, e mostrar o quão possível esta mudança é”, diz Carine Roos, fundadora da UPWIT.

Com o convite de compartilhar inspirações e dados referentes a alguns desafios para a promoção da equidade de gênero e contar o trabalho realizado pela UPWIT, entrevistamos Carine, fundadora da iniciativa. Confira!

Movimento Mulher 360: Como surgiu a UPWIT? Qual foi a inspiração de vocês para a criação da iniciativa?
Carine Roos: Nós identificamos, ao longo das experiências em empresas, espaços de tecnologia e eventos de empreendedorismo que há um gap enorme em relação à quantidade de mulheres em comparação aos homens nesses espaços, não só no Brasil, mas em nível global. A experiência pessoal de frequentar esses espaços e “sentir na pele” o preconceito de gênero foi o elemento crucial que me motivou a criar a UPWIT. A iniciativa é uma consultoria em inteligência e equidade de gênero e inovação que existe há um ano e nasceu a partir da necessidade de tornar, em especial, os ambientes de tecnologia e inovação mais inclusivos e diversos, principalmente nas empresas e universidades.

Movimento Mulher 360: Quais são os objetivos da iniciativa?
Carine Roos: Nosso principal objetivo é fomentar a liderança feminina e a mudança de cultura dentro das empresas para que elas percebam a diversidade como um vetor de inovação. Queremos promover conexões e a colaboração entre as mulheres para que elas sejam incluídas em todos os espaços de decisão. Promovendo esse trabalho não só com a comunidade, mas também dentro das empresas conseguimos fechar o ciclo de transformação, cumprindo a missão da empresa.

Movimento Mulher 360: Como funciona a dinâmica de trabalho de vocês? Quem participa?
Carine Roos: Nós atuamos em duas frentes: uma é voltada à comunidade, onde oferecemos workshops utilizando diversas metodologias para incentivar práticas inclusivas e a criação de soluções inovadoras. Nesses workshops, articulamos uma rede de participantes que envolve mulheres que são líderes, jovens que estão iniciando a vida profissional, especialistas e convidadas, valorizando sempre a diversidade de perfis e a formação dessas pessoas.

Estes eventos acontecem em dois momentos: primeiro trazemos especialistas para um painel em formato de aquário, que apresentam pontos importantes sobre o tema abordado, depois promovemos o workshop para trabalhar as questões levantadas no painel.

A segunda frente que atuamos é a consultoria para empresas. Oferecemos serviços que trabalham a promoção de equidade de gênero, sendo programas de lideranças para mulheres em diferentes níveis (àquelas que não são líderes, àquelas que estão em um primeiro nível de liderança e alta liderança), workshops, palestras, pesquisas, sempre relacionados à diversidade e inclusão.

Movimento Mulher 360: Qual tem sido o feedback das mulheres que participam dos workshops? Quais os principais resultados do trabalho?
Carine Roos: Em um ano de organização, mais de 700 mulheres já passaram pelos workshops e treinamentos, e sempre recebemos feedbacks positivos. Mulheres que hoje são mais autoconfiantes e seguras, mulheres que são líderes e se veem hoje nessa posição. A rede de troca e mentoring após os encontros tem sido fundamental para elas continuarem esse desenvolvimento pessoal e de apoio.

Movimento Mulher 360: Quais foram os principais resultados do e-book?
Carine Roos: O principal resultado foi compreender a jornada profissional e os desafios de mulheres com diferentes posições e repertórios no mercado de tecnologia. Entender que o sentimento de insegurança que a mulher enfrenta em todas as etapas da sua carreira, desde o ingresso à universidade até a construção do seu legado, é uma chave importante para pensarmos em soluções para o seu fortalecimento.

Outro ponto importante é a compreensão de que para alterar esse cenário é importante uma mudança de comportamento das mulheres, das universidades e das empresas. Todos têm um papel fundamental para a transformação desse cenário desigual e injusto.

Movimento Mulher 360: Entre o que foi abordado no e-book, quais são os destaques?
Carine Roos: Durante a análise dos dados obtidos no workshop que deu origem ao e-book, nós percebemos que os desafios enfrentados pelas mulheres estavam relacionados a três principais pilares: indivíduo, universidade e empresa.
O primeiro pilar abordado no e-book diz respeito às demandas pessoais das mulheres que trabalham no setor. Constatamos que existem problemas com perspectiva da autoimagem da mulher enquanto sujeito social e que atingem a maioria das profissionais de diferentes posições do mercado da tecnologia.

O segundo pilar foi sobre a universidade, que é o primeiro ambiente em que as mulheres se deparam com a realidade da área de tecnologia. Ao ingressarem nos cursos, elas encontram salas de aula predominantemente masculinas e se sentem intimidadas pelos colegas e professores. Ter poucas alunas na sala de aula pode acarretar em exclusão, perseguições psicológicas, questionamentos sobre a capacidade intelectual e até mesmo sobre sua decisão de estar ali.

No terceiro pilar, nós abordamos os desafios do mercado de trabalho, onde as mulheres encontram situações ainda mais complicadas. As empresas de tecnologia ainda estão pouco preparadas para receber as profissionais e, segundo os depoimentos das participantes do evento, o problema começa no momento da entrevista que são carregadas de pegadinhas e perguntas pessoais, e mostram como a maioria dos entrevistadores não possui preparo para incluir a mulher nesse mercado.

Movimento Mulher 360: Quais são as principais barreiras para a igualdade de gênero na área de tecnologia?
A primeira barreira é a educação e o estereótipo de que mulher não pertence à área de exatas, tecnologia e inovação e, portanto, faltam referências para elas se enxergarem nessa profissão. O fato de não serem criadas para serem engenheiras e nem líderes, fazem com que elas se sintam inseguras e se submetam a um alto nível de cobrança e de stress.
A segunda barreira é a universidade e o mercado, o fato de serem minoria faz com que se abra espaço para assédios, solidão e exclusão pelos colegas tanto na faculdade como no ambiente de trabalho. Tudo isso pode acabar sendo uma pressão maior do que a mulher pode suportar, contribuindo para que ela desista do curso e do mercado.

Uma outra barreira é quando ela chega em um cargo de liderança, onde novamente terá que se provar muito mais para estar naquele cargo. Além disso, o desafio da maternidade (sentimento de culpa e pressão da sociedade pelo cuidado da casa e dos filhos) faz com que seja praticamente impossível elas assumirem o alto comando das empresas.

Movimento Mulher 360: Como avançar para que tenhamos a verdadeira inclusão das mulheres na área de tecnologia?
Carine Roos: O primeiro passo é, com certeza, a conscientização de todas as esferas da sociedade. Universidades e empresas têm um papel fundamental na transformação do mercado de tecnologia, cabendo a elas educar, contratar, proporcionar ambientes acolhedores e contribuir para o crescimento profissional das mulheres.
É preciso que as empresas olhem de forma estratégica para a equidade de gênero. Existem algumas ações que já estão sendo feitas por empresas para mudar esse cenário. O aumento da licença-paternidade é um exemplo. O Twitter oferece 4 meses e meio de licença, o Facebook oferece 4 meses e o Google 3 meses. Já a Microsoft investiu na capacitação, ensinando programação a jovens de 12 a 25 anos. A mesma empresa também adotou uma medida na seleção de candidatos para qualquer vaga: pelo menos uma mulher precisa estar entre os finalistas.

Movimento Mulher 360: O que cabe, na parte prática, às mulheres, à sociedade, às empresas e às universidades nesse processo de inclusão?
Carine Roos: A mulher deve estar preparada e qualificada para o mercado que, cada vez mais, exige de todos os profissionais, além de trabalhar o seu autoconhecimento e confiança para enfrentar os desafios que encontra pelo caminho. A universidade deve promover ambientes mais acolhedores, apresentar mulheres referências do mercado para inspirar as alunas e pensar em um corpo docente e administrativo mais diversos.
As empresas precisam preparar os departamentos de RH para proporcionar não só entrevistas mais justas, como também trabalhos mais justos com igualdade salarial. Elas também precisam estar comprometidas com capacitação e desenvolvimento dessas profissionais, oferecer planos de carreira claros, programas de mentorias, flexibilidade e engajar os funcionários homens nesse tema, pois sem o reconhecimento deles não haverá transformação. As lideranças precisam estar sensibilizadas e engajadas no mais alto nível para que a equidade de gênero esteja transversalizada em todo o planejamento da empresa. As lideranças também precisam receber treinamentos inclusivos para eliminar o viés implícito de gênero e reconhecer esse problema como um atraso para a organização e uma barreira para a inovação e produtividade da empresa.
Cabe à sociedade a cobrança de leis e de um plano de ensino que envolva igualdade de gênero e etnia para avançarmos enquanto sociedade. É importante o estabelecimento de alianças com organizações estratégicas como a ONU Mulheres, Movimento Mulher 360, Aliança para o Empoderamento da Mulher e outras para que o tema da igualdade de gênero seja ampliado e capilarizado não só nas empresas e sociedade civil, mas universidades, governos e comunidades técnicas.