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Coordenadora da FGV fala sobre desafios para a equidade de gênero nas empresas

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“As mulheres precisam aprender cada vez mais a se beneficiar das redes de mulheres e reconhecer o potencial do apoio de grupo”, afirma Maria José Tonelli, coordenadora do Programa 10.000 Women, na Fundação Getulio Vargas (FGV), em entrevista para o Movimento Mulher 360.

O programa, lançado pelo banco Goldman Sachs em 2008, oferece educação empreendedora e oportunidades de mentoria e networking a mulheres. A última turma da iniciativa se formou no início de 2017. Não há previsão de abertura de novas classes. No Brasil, 1.300 empreendedoras já participaram dos cursos.

Maria José falou sobre o Programa 10.000 Women e outras questões, como sororidade no ambiente de trabalho, avanços e desafios relacionados ao tema equidade de gênero e empoderamento feminino.

MM360: No Programa, vocês têm incentivado as mulheres a fortalecer os laços entre elas. Como incorporar a sororidade no ambiente de trabalho?
Maria José: Essa é uma questão interessante. As mulheres precisam aprender cada vez mais a se beneficiar das redes de mulheres e reconhecer o potencial do apoio de grupo. Quando as mulheres participam do programa, elas percebem que dificuldades antes percebidas como individuais são dificuldades enfrentadas por todas. Isso fortalece os laços entre elas.

Movimento Mulher 360: Além do próprio empoderamento que o Programa proporciona às mulheres, há algum tipo de incentivo para que empresas possam fazer para contribuir para a promoção do empoderamento econômico feminino?
Maria José: Sim, as empresas podem desenvolver programas para compras afirmativas, como incluir empresas lideradas por mulheres na sua cadeia de suprimentos.

MM360: Quais são os desafios mais comuns encontrados pelas mulheres que participaram do Programa para que possam seguir seus sonhos? Há algum relacionado à desigualdade de gênero?
Maria José: Uma das principais dificuldades é incluir conhecimento e finanças e planejamento de longo prazo. Mas justamente essas dificuldades ocorrem porque as mulheres são menos confiantes no seu potencial empreendedor, não se veem como empresárias, com potencial de crescimento.

MM360: Você tem algumas dicas para aquelas mulheres que estão em dúvida se vão criar a sua própria empresa ou crescer na empresa em que estão?
Maria José: Essa é uma questão comum, especialmente quando se coloca a questão da maternidade. Empreender também significa trabalhar muito. O que pode resultar em benefícios é alguma flexibilidade que o trabalho nas empresas não permite. Ser empreendedora traz essa flexibilidade, mas o trabalho é intenso e as mulheres precisam estar conscientes disso.

MM360: Ainda temos um cenário onde muitas empresas não consideram as desigualdades entre homens e mulheres ou têm uma resistência para começar a abordar o assunto. A que se deve essa resistência?
Maria José: Trata-se de uma questão de fundo, entranhada na cultura, no imaginário de cada um. Além disso, é também uma questão de poder. Essas questões são todas difíceis e não se alteram rapidamente, são necessárias gerações para mudanças. A História nos mostra isso.

MM360: Há muito o que comemorar em relação aos avanços pela equidade de gênero e empoderamento feminino no Brasil? Por qual motivo?
Maria José: Ainda que sejam mais lentas do que gostaríamos, é evidente que houve mudança nessas últimas décadas. Várias questões contribuíram para isso: a maior presença de mulheres em cargos de gestão e liderança, as mídias sociais que divulgam mais rapidamente questões que antes ficavam escondidas, as novas gerações que cresceram em ambientes mais democráticos e prezam esses valores.

MM360: Onde precisamos avançar nessas questões?
Maria José: Há necessidade de avanço em diversas áreas no Brasil. Estamos na posição de #85, com pequena participação das mulheres como representantes na política, com pouca participação das mulheres em conselhos, com alto índice de violência contra as mulheres, desigualdade brutal entre classes, especialmente com o trabalho das mulheres negras, entre outros aspectos. Tais questões precisam ser endereçadas para podermos ter uma sociedade mais justa e igualitária, consequentemente benéfica para todos.

MM360: Qual sua opinião sobre a importância do trabalho realizado pelo Movimento Mulher 360?
Maria José: Considero que se trata de um trabalho fundamental, uma vez que potencializa e acelera as mudanças necessárias para o empoderamento das mulheres. Além disso, dá visibilidade ao tema, que hoje está mais presente no cotidiano das empresas. Mas a equidade entre gêneros, e entre gêneros e raça, ainda está muito longe de ser alcançada.